
Retornar, sempre foi, no percurso da minha vida, um processo doloroso, quase traumático. Talvez porque nunca soube calcular a medida da entrega ou refletir em possíveis consequências da imersão. “Não é necessário ir com tanta força”, já dizia a minha avó. Sinto como se todas as minhas viagens não tivessem volta, como se fosse instaurada uma revolução eterna e, diante do universo que já não vivo mais, voltar, quase impossível, guerra dentro de mim. Foi assim com os personagens que interpretei e da mesma maneira é com os livros, os lugares que conheci, os sonhos que planejei e não realizei, os protagonistas das minhas reportagens, ou os fatos tristes e felizes da minha história. Tudo altera a minha percepção de alguma forma, uma simples situação se torna um toque pungente, revelador.
Quando conheci Álvaro de Campos a identificação foi instantânea. Heterônimo de Fernando Pessoa, Campos é o poeta modernista que escreve as sensações da energia e do movimento, bem como as aspirações de sentir tudo de todas as maneiras. É o poeta que mais expressa o postulado do "sensacionismo", elevando ao excesso aquela ânsia de sentir, de percepcionar toda a complexidade das sensações. “Poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! Rasgar-me todo, abrir-me completamente. Tornar-me passento a todos os perfumes desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável”. Esses foram os primeiros versos que li de Álvaro de Campos.
Talvez eu sempre tenha ânsiado essa completude de uma forma muito intensa, como se uma sensação constante de algo ausente me atormentasse. Não que esteja abandonando o meu jeito de ser “excessivo”, como gosta de dizer minha mãe. Mas tenho procurado uma maior serenidade e leveza com as coisas, com as pessoas e com as situações que permeiam meu cotidiano. Mergulhar com cautela, olhar onde estou pisando e me proporcionar um retorno mais doce, menos sofrido, “uma forma mais amável e leve de ser e de viver”, para recordar Murilo Mendes. Continuo achando que a essência da nossa existência é a busca. Cada um daquilo que almeja, à sua maneira, mas em consonância com o bem maior e com a consciência de que não estamos sozinhos no mundo. E de qualquer forma, assim como o poeta, às cegas, às tontas, tenho feito o que acredito, do jeito talvez torto que sei fazer. Acredito que o segredo não consiste apenas em viver, mas de encontrar um objetivo para viver.
Ensaiei vários momentos de voltar ao blog, essa ferramenta que adorava e que escrevi sobre quase tudo. Mas estava imerso em tantas outras coisas nos últimos dois anos, que adiei, prolonguei o retorno. Também passei a achar esse universo virtual demasiadamente chato, repetitivo. 2011 marca o início de um novo período da minha vida e esse é meu pretexto para retomar o blog. Resolvi apagar os 398 textos que havia escrito. Não que considere imaturo as coisas que escrevi, mas se desejava começar outra vez, teria que ser de um novo início. Obrigado pelos milhares de comentários que foram feitos, pelas discussões e até amizades que surgiram aqui.
Diante desse novo momento, não sei se conseguirei prosseguir com o blog de maneira tão comprometida. Nem sei se conseguirei realmente sair do primeiro post (risos), mas quero tentar.
1 comentários:
Acho bom! Inspiração é o que não vai faltar.
Dessa busca, ou nessa nova fase, dois novos coadjuvantes se inserem. Numa procura similar, porem diferente.
Conte comigo para o que vier.
No mínimo um novo e constante visitante pro teu blog.
Abraços
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